Paraná pode ganhar programa inédito para conservação de grandes felinos

Paraná pode ganhar programa inédito para conservação de grandes felinos

O Paraná pode ganhar um programa inédito no País para a preservação de grandes felinos, como a onça-pintada e a onça-parda. A necessidade de criação de um plano efetivo para conservação dessas espécies vitais para o equilíbrio ecológico foi o tema de uma audiência pública realizada nesta segunda-feira (29) na Assembleia Legislativa do Paraná. Proposta pelo deputado Goura (PDT), presidente da Comissão de Ecologia, Meio Ambiente e Proteção aos Animais, o encontrou reuniu especialistas e estudiosos no assunto para debater a importância de se estabelecer políticas públicas de preservação dos animais e de seu habitat.

Os participantes trataram, entre outros temas, da criação de um Programa Estadual para a Conservação dos Grandes Felinos do Paraná. “A proposta para criação de um programa pode ser inédita no Brasil. Pelo o que discutimos, esta é uma ação necessária. Por isso, enviaremos os encaminhamentos discutidos para o Governo do Estado e órgãos responsáveis. Queremos a efetivação de um programa estadual de conservação dos felinos, além do fortalecimento das unidades de conservação e dos corredores ecológicos”, avaliou Goura.

O objetivo da audiência, explicou o deputado, é construir diretrizes do Programa, com estratégias de curto, médio e longo prazo. O diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clovis Borges, reforçou a necessidade. “Precisamos tornar a conservação de animais uma política de Governo e uma política de sociedade. Tenho certo otimismo. As iniciativas existem”, concordou. Goura reforçou que são necessárias ações concretas e urgentes para recuperar a Mata Atlântica e salvar a onça-pintada.

A presença da onça-pintada na região do Parque Nacional do Iguaçu e na Serra do Mar, na Grande Reserva da Mata Atlântica, entre os estados de São Paulo e Paraná, demonstra que as regiões apresentam condições para sobrevivência e reprodução da espécie. “Queremos debater políticas públicas e atribuição para construir diretrizes de um programa, além de elaborar atribuições de cada esfera de governo. Queremos sair daqui com propostas factíveis. A presença de grandes felinos é indicativo de equilíbrio ecológico”, disse o parlamentar.

Participações

A bióloga Yara de Melo Barros, coordenadora executiva do Projeto Onças do Iguaçu, relatou as experiências do projeto, as ações estratégicas para coexistência entre onças e pessoas, além de reforçar a necessidade de conservação das matas. “A missão do projeto é a conservação da onça como uma espécie-chave do equilíbrio. O Paraná é um Estado desmatado. O Parque Nacional do Iguaçu é como uma ilha de vida. Em torno de 85% da mata já foi perdida. Hoje, só 1% apresenta qualidade para a vida das onças. Precisamos aumentar essas áreas e não perder mais nenhum metro. A população de onças está crescendo. Estamos aos poucos se afastando da extinção local, mas precisamos continuar nosso trabalho”, disse.

O biólogo Roberto Fusco, que trabalha no Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar de Monitoramento e Conservação, ofereceu um panorama sobre os grandes felinos. Ele explicou que a onça-parda e a onça-pintada são animais do topo de cadeia, com papel importante no ecossistema. “Sem elas, pode-se provocar um efeito cascata no meio ambiente. Nosso desafio maior é recuperar e manter essas populações”, afirmou.

Para isso, o profissional listou uma série de necessidades para coexistência entre os animais e o ser humano, como a de se oferecer recomendações e assistência para melhorar as práticas de manejo de rebanhos, a fim de reduzir a predação e a morte por retaliação; aumento da fiscalização e fortalecimento das unidades de conservação para coibir a prática da caça ilegal sobre onças e suas presas; monitoramento e garantia de proteção das populações existentes; aumento da conectividade dessas populações por meio de identificação dos corredores, entre outros.

Unidades de Conservação

Já Bianca Ingberman, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC) e do Instituto Manacá, falou dos avanços na proteção, monitoramento e fortalecimento das unidades de conservação. “Estas espécies precisam de grandes áreas para viver. Os grandes felinos são excelentes indicações ambientais, pois são sensíveis a intervenções. Buscamos, através do conhecimento, contribuir com estratégias de conservação da biodiversidade. Já identificamos na Serra do Mar oito onças e um filhote. A Serra do Mar é uma área prioritária para conservação da onça-pintada”.

Angela Kuczach, graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e diretora da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação (Rede Pró UC), lembrou a importância das unidades de conservação para a preservação ambiental no Estado. “Temos uma história de destruição da Mata Atlântica no Paraná, onde nada sobrou no centro do Estado. Sobrou mata apenas no leste e oeste. Só temos onças-pintadas nesses locais por causa das unidades de conservação. Por isso, precisamos olhar para o Estado como um todo, com a possibilidade de conectividade. Podemos pensar que a preservação de leste a oeste pode ser feita pelo Rio Iguaçu. A proteção dos rios pode servir como corredores de conservação. Conservar grandes felinos é estratégico para preservar a biodiversidade”, comentou.

Fernando Tortatto, da ONG Panthera, reforçou a ideia de incluir na necessidade de conservação dos animais o turismo de natureza aliado à exploração da atividade econômica. Segundo Tortatto, o turismo de natureza é uma indústria em crescimento e que está avançando muito em áreas críticas para conservação da biodiversidade. O pesquisador citou um estudo realizado por ele em 2015, comparando os ganhos com o ecoturismo de visitação de parques com onças e as possíveis perdas da pecuária local. “Em nossa comparação no Pantanal, o turismo representou um ganho que chegou ao montante de U$ 7 milhões. Já os prejuízos para pecuaristas ficaram em U$ 121 mil. Isso prova que temos que integrar o pecuarista para que as onças não continuem morrendo. O Pantanal tem um cenário favorável para conservação”, constatou.

A importância de programas de reintrodução e reforço populacional, além do papel dos criadouros em cativeiro para preservação das espécies foram citados pela médica veterinária Rose Gasparini Mora, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros/CENAP. O Brasil tem atualmente entre 90 e 100 onças-pintadas em cerca de 40 instituições, incluindo zoológicos e criadouros. “Trabalhamos com monitoramento, pesquisa e informação. Com planejamento estratégico, os animais servem como laboratório para se conhecer mais sobre a espécie”.

O biólogo e primeiro tenente Ulisses de Deus Gomes, do Batalhão de Polícia Ambiental Força Verde da Polícia Militar do Paraná, falou da prática diária no combate aos crimes ambientais e as ameaças aos grandes felinos. Já a coordenadora de Gestão de Recursos Naturais e Educação Ambiental da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo (Sedest) Fernanda Góss Braga, tratou do papel do Estado para a conservação dos grandes felinos do Paraná, além de falar sobre os recursos públicos e privados para proteção e conservação das espécies. Também participaram do encontro o biólogo e fotógrafo Leonel Carlos Anderman, as biólogas Marion Letícia Bartolamei Silva e Karynna Tolentino, ambas da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, e a estudante e militante Clara Marés.

Extinção

A onça-pintada, o maior felino das Américas e o terceiro do mundo, está ameaçada de extinção por já ter perdido 85% de seu habitat e corre risco de desaparecer na Mata Atlântica, onde estima-se que vivam cerca de 250 indivíduos. E o maior contingente de onças-pintadas da Mata Atlântica está no Paraná, segundo estimativa do Projeto Onças do Iguaçu. O último censo, realizado em 2018, contabilizou 28 onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu (PNI) e 105 no Corredor Verde entre Brasil e Argentina. O PNI tem 185 mil hectares e é o maior núcleo remanescente das populações de onças-pintadas na Mata Atlântica.

A onça-pintada era encontrada desde o sudoeste dos Estados Unidos até o centro-sul da Argentina e Uruguai e vivia em diversos habitats, de florestas aos semiáridos. Hoje é considerada extinta nos EUA e muito rara na América Central. FONTE ALEP

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